No dia seguinte, acordei cedo, o sol filtrando pelas cortinas do dormitório em raios dourados, enquanto Troy roncava profundamente no beliche de cima, exausto de sua semana corrida. Não quis acordá-lo, respeitando seu descanso merecido.
Saí do dormitório com passos leves, o ar matinal fresco carregado com o orvalho da grama, e preparei uma sacola inteira de lanches para comermos durante nosso projeto - sanduíches recheados com queijo derretido e presunto, doces variados como bolinhos de chocolate e frutas frescas, sucos em garrafas coloridas. Fui em direção ao lado leste do campus, passando pela estátua do fundador, a quem eu cumprimentei com um usual “e aí”.
A cafeteria mencionada por Hanabi estava acolhedora, com cheiro de café fresco e mesas de madeira espalhadas. Cheguei cedo e posicionei alguns dos comes sobre a mesa. A garota loira chegou pontualmente, carregando um caderno cheio de ideias, seus olhos azuis brilhando de empolgação.
— Kael-kun, bom dia. Estou cheia de ideias. Acabei me adiantando e rasurei alguns mapas e até mesmo fichas de personagens.
— Hanabi-san… quanto à biblioteca ontem…
Ela olhou para mim com olhar de curiosidade. Não parecia que queria esconder algo; era pura curiosidade mesmo. Peguei um mapa que ela tinha colocado na mesa e “continuei” a fala.
— Você fez esse mapa lá. Está incrível.
Sua empolgação era verdadeiramente contagiante e achei que era momento de aproveitarmos essa nova amizade.
Eu estava genuinamente impressionado. Havia esquemas inteiros para dungeons. Guildas com diversos participantes e até mesmo umas duas quests muito interessantes. Fiquei uns 30 minutos olhando e lendo tudo enquanto ela me explicava cada uma de suas ideias.
— Isso é fantástico, Hanabi-san! — Peguei as fichas de personagens e comecei a folheá-las com interesse.
Mesmo se corando, ela manteve animação.
— Obrigada Kael-kun. Essa é a primeira vez que posso mergulhar de cabeça em meu modo full-geek desde a minha adolescência com a Amanda.
— Quem é Amanda? — Perguntei de maneira casual? — Se é sua amiga, talvez ela possa se interessar em se juntar ao nosso grupo.
Hanabi se mostrou muito incomodada. Perguntei algo que não devia? Um dia ainda morro de sincericídio, pensei, sentindo uma culpa sutil. Resolvi mudar de assunto abruptamente.
— Acha que o professor Aiden vai chegar logo?
— Eu raramente vejo os professores no campus aos sábados, Kael-kun. — Respondeu ela voltando do incômodo anterior. — Precisa da ajuda dele com algo?
— Bem, ele me pediu lanche para três, então assumi que ele se uniria a nós, talvez para guiar nossas narrativas como um mestre de jogo.
Hanabi parou para pensar por um segundo, percebendo que a lógica fazia sentido. Enquanto isso, ouvi um barulho sutil em minha sacola de lanches, um farfalhar como folhas em uma brisa, e vi um sanduíche sendo abduzido com destreza e as fichas de personagens sendo arrancadas de minhas mãos com um puxão rápido.
— Pode esperar sentado pelo professor nerdão. Ele tem outras merdas pra fazer no sábado, como todos os outros professores.
Eu estava muito confuso, piscando repetidamente ao ver a rebelde puxando uma cadeira de madeira com um rangido, sentando-se próxima a nós com uma postura relaxada, mas desafiadora. As mechas roxas em seu cabelo chamavam a atenção, balançando como chamas rebeldes enquanto ela “caía” na cadeira, botava os pés em cima da mesa com um baque surdo e lia as descrições nas fichas de personagens enquanto arrancava metade do sanduíche com uma mordida.
— Rey-chan, que surpresa te ver aqui, principalmente no sábado. Não tem outras “merdas” pra fazer também?
Provoquei, não conseguindo controlar minhas piadas ruins, o que não foi muito bem aceito por ela que cerrou os olhos enquanto me encarava.
— Primeiro: eu tô aqui para ganhar créditos extras com o professor Aiden; vou ficar na minha enquanto vocês fazem o trabalho. Eu só mostrei minha cara para o caso daquele nerdão acabar aparecendo. Segundo: eu prometi me comportar e não surrar ninguém, mas se me chamar de “Rey-chan” de novo, estaremos preenchendo seu atestado de óbito, ouviu, novato?
— Tudo bem, Rey… san? Não vou provocar novamente, mas nos ajude com ideias. Agora faz muito sentido o que o professor disse sobre ajuda para as batalhas, com sangue e violência. O que é melhor do que ter uma especialista conosco?
Rey não fez nenhuma reação. Apenas continuou comendo o sanduíche e lendo as fichas. Ela descartou a maioria delas com um “chato” ou um “ah, não acredito que você escreveu isso”. Quando ela passou pela maga (cujo desenho “coincidentemente” parecia muito com a Hanabi, porém um pouco mais ousada), tive a forte impressão de que ela gostou:
— Ahhhhh! Chato pra carambaaaaaa! Não acredito que você se veja como uma maga assim!
Esse comentário incomodou um pouco a Hanabi, mas essa não teve nem tempo de rebater, pois a rebelde continuou:
— Cadê as fichas de classes legais? Assassino? Ladino? Elfo negro?
— Eu… não fiz essas fichas… — Hanabi se mostrava incomodada. A história que ela estava nutrindo a semana toda já começava a sair de seu controle na primeira hora de reunião.
Rey deu um tapa na própria testa e continuou a falar:
— Mas que… Vocês não têm salvação! Vou ter que fazer eu mesma.
Rey, então, pegou um lápis comum e o apontou bem. Depois pegou uma folha em branco e começou a fazer sua personagem com foco intenso… logo depois de lançar mais uma reclamação.
— Tanta coisa pra fazer num sábado e tô eu aqui dando duro pra salvar essa história de vocês.
Ela esboçou e, logo depois, desenhou com rapidez e destreza uma ladina elfa de cabelos negros e mechas roxas vibrantes. Seu desenho era quase profissional, com linhas precisas e sombras bem definidas; adicionou habilidades de assassina como furtividade e ataques críticos e até mesmo um backstory trágico para ela, em que ela cresce num ambiente violento, é desprezada pela mãe viciada e agredida pelo pai ausente. Teve que começar a roubar para poder comer, desenvolvendo habilidades de invisibilidade e ilusão para se proteger, como um manto de sombras em um mundo hostil.
Eu li a ficha de personagem dela algumas vezes, cada vez com uma preocupação maior. O quão diferente ela realmente é de mim? Sempre usei meus poderes para fugir de minha realidade e, aparentemente, Rey também poderia se beneficiar de uma “fuga” em algum momento. Deixei uma nota mental sobre isso e perguntei a ela:
— Rey, o quanto dessa história é… real?
Rey não respondeu imediatamente. Estava comendo um doce que eu tinha trazido, o chocolate derretendo levemente nos dedos, olhando para o lado por alguns segundos longos, o olhar distante, como se revisitando memórias sombrias. Resolveu responder sem mudar seu semblante duro:
— Uma mãe viciada e um pai bosta. Não me orgulho de tudo o que fiz na vida, mas estou trabalhando pra mudar essa vida de merda e, talvez, garantir uma vaga aqui na ENS também para meu irmãozinho.
Nunca vi a Rey tão séria e sincera. Hanabi tinha os olhos cheios de lágrimas, olhando para ela com um carinho quase fraternal. Quando Rey olhou para nós e viu nossos rostos, vi um segundo de medo em seu rosto e logo depois ela abriu uma gargalhada:
— Vocês realmente acreditaram nessa lorota? São muito nerds mesmo! Basta umas palavrinhas tristes pra vocês acreditarem em qualquer coisa.
Ela ria enquanto me jogava um guardanapo amassado. Uma ponta de revolta me veio de dentro, por alguns segundos, até eu olhar o rosto dela e ver os traços de dor disfarçados no sorriso forçado.
Resolvi simplesmente continuar com nossa história. Escondi meus sentimentos por trás de um deboche “muito engraçado, Rey-Hime Sama” e voltei minha atenção para Hanabi.
— Então, Hanabi-san, a Princesa dos Espinhos — Rey apenas deu uma bufada com esse comentário — já escolheu como vai ser sua personagem. Mas eu consigo ver uma maga muito familiar nesta ficha aqui. — Falei, apontando para uma ficha de uma humana maga, o desenho evocando Hanabi com toques místicos.
— Eu… sempre quis ser uma maga num RPG. — disse com as tradicionais bochechas coradas. — Estudar magias arcanas, pesquisar sobre a história do mundo e poder lutar à distância para ajudar meus companheiros, decidindo qual a magia mais efetiva para usar em cada situação. As lutas seriam mais uma disputa de lógica do que de poder bruto. Adicionei uma habilidade de linguista a ela, para que ela possa decifrar runas e linguagens antigas. Acredito que seria muito útil. E, para dar um efeito mais místico, adicionei um grimório que ela usaria para recitar magias, guardar mapas, fazer anotações, etc.
A criatividade dessa garota não tinha limites! Eu continuava me impressionando com as criações dela. Ela seria um verdadeiro perigo se tivesse meus poderes. Os universos que ela criaria seriam vivos e poderosos! Eu, por minha vez, tinha uma ideia vívida em minha mente de como seriam suas personagens e comecei a descrever para elas:
— Então… eu vejo a Rey se materializando como uma elfa ladina. Sua roupa confortável mistura o preto profundo com toques de roxo vibrante, ecoando as cores em seus cabelos que voam com o vento enquanto ela corre para flanquear um inimigo. Na cintura ela tem adagas presas, uma de cada lado, de forma que ela cruza os braços para sacá-las com fluidez, como se fosse um movimento de dança, tão natural quanto o vento soprando entre árvores. Os olhos amarelos brilhariam no escuro, quando necessário, podendo até mesmo enxergar com pouca visibilidade, como um gato noturno. Ela nunca cairia numa armadilha e nunca recuaria de um desafio. Seus poderes de invisibilidade e ilusão a tornam o maior perigo possível para qualquer adversário que conte com seus olhos para o combate, pois, do nada, ele estará encarando 10 Reys diferentes no campo de batalha, onde nenhuma delas será a verdadeira. A última coisa que esse oponente verá será o brilho fraco das adagas saindo do modo stealth para um golpe inevitável. Ela seria um misto de terror e beleza, que hipnotizaria tanto aliados quanto inimigos ao seu redor.
Logo depois peguei a ficha da maga e descrevi com o mesmo entusiasmo.
— Nossa tímida Hanabi aqui se torna uma poderosa maga. Ela veste uma blusa larga e uma saia que chega até os joelhos, muito fluida para seus movimentos, geralmente de distanciamento, pois sua forma de lutar será à distância. Ela também usaria um capuz do tamanho de seu corpo que passaria a poucos centímetros do chão e voaria enquanto ela se movimentasse como se fosse uma capa, um belo chapéu de mago e óculos vermelhos. Todas as peças seriam predominantemente brancas, como a pureza da Hanabi, mas teriam grandes chamas vermelhas indicando seu poder destrutivo e criativo. Seu cajado seria bem vivo, sempre crescendo novos ramos verdes e floridos; teria que ser aparado com frequência como uma planta selvagem, mas isso faria com que ele evoluísse constantemente, ganhando força. A maga buscaria novas formas para deixá-lo mais poderoso ou para focar em magias específicas – fogo para ataques diretos, gelo para controle – ou ficaria apenas no fogo, ecoando a personalidade inflamável de quando ela se empolga com um assunto. Por fim, teria seu grimório, preto com detalhes brancos contrastantes, que teria uma ligação telepática com ela, abrindo sozinho na magia que queira usar, com páginas virando sozinhas, ou mostrando mapas detalhados segundo a necessidade, como um companheiro senciente. Sua fidelidade seria comparável apenas à leveza com que ele flutuaria atrás da maga, sempre pronto para o combate, para mostrar um mapa holográfico ou para registrar as aventuras vividas.
Quando parei meu monólogo, ofegante como após uma batalha verbal, via as garotas olhando pra mim com caras de assombro genuíno, bocas entreabertas. Acho que exagerei na narrativa e nem mesmo cheguei a fazer um salto dimensional para ser taxado de esquisito. Deve ser um recorde pessoal. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, a loira disse:
— Kael… isso foi…
— Quase como se eu pudesse ver nossos personagens. — Acrescentou Rey.
— Sim! Sua narrativa é surreal. Adoraria te ver narrando O Guia do Mochileiro, ou melhor, Harry Potter. Acho que eu me sentiria em Hogwarts com meu uniforme da Corvinal.
Eu estava aliviado, o peito se expandindo com ar fresco – ainda não era o esquisito do grupo. O comentário sobre Harry Potter trouxe Rey de volta à realidade, que bufou algo sobre “é claro que a nerdzinha seria Corvinal”. Legal, Rey também é Potterhead, provavelmente uma Sonserina com sua atitude afiada. Foi Hanabi que interrompeu meu momento mental de Chapéu Seletor, trazendo-me de volta:
— Agora precisamos escolher seu personagem, Kael-kun. — disse, pegando algumas fichas.
— Isso é fácil! — Afirmou Rey, sem se distrair de um copo de suco que tomava. — Ele vai ser um cavaleiro com toques de mago que vai se matar nos dois primeiros minutos ao jogar uma bola de fogo em si mesmo! Idiota como ele é, isso combina.
— Eeeii! Me dá uns dois dias de vida pelo menos! — Discordei… em parte. — Talvez eu me mate congelado, para variar!
Hanabi ria com a interação entre nós dois, o som leve enchendo o café, e até mesmo Rey esboçou um pequeno sorriso com minha resposta, os cantos da boca se curvando. Logo depois, Hanabi acrescentou, pegando uma ficha em específico com cuidado:
— Sabe, eu te vejo como um bardo. Suas palavras, às vezes, parecem mágicas, como se você fosse capaz de fazer acontecer aquilo que diz, tecendo realidades com narrativas. Além disso, é criativo e foi capaz de unir a nós duas numa mesma mesa, mesmo que seja por pouco tempo. — Ela falava olhando para a ficha do bardo com um alaúde nas mãos, mas ao nos ver olhando para ela, a loira acrescentou: — Mas é só como o vejo.
Eu ponderei sobre aquelas palavras por um tempo. Nunca tinha me visto dessa forma. Além disso, até mesmo parecia que ela sabia dos meus poderes ao dizer isso, o que não acredito ser possível. Eu peguei um copo e coloquei metade de suco de laranja e completei com suco de acerola e foi então que me ocorreu a resposta:
— Eu gostei das sugestões. Acho que vou mesclar as duas ideias. Claro que vou evitar bolas de fogo ou de gelo. Elas seriam um verdadeiro perigo em minhas mãos. Então eu seria uma mistura de cavaleiro com bardo, em que uso minhas habilidades musicais para suporte e debuff adversário e saco minha espada para ajudar a estrela de nosso grupo, a Rey para, como foi que você disse mesmo? “Chutar bundas de orcs”. Acho que isso forma uma boa equipe e tem muito potencial para a história.
Mais uma vez os olhos de Hanabi brilharam. E Rey mostrava uma leve aprovação para minha escolha.
— Há. É óbvio que vou ser a protagonista das porradas. Minha ladina vai ser badass. E se vocês saírem da linha, eu tenho uma adaga para cada um de vocês e sigo carreira solo rapidinho!
Nos divertimos com nossas criações pelo resto do dia. Hanabi não parava de anotar nossas ideias em seu caderno e organizar tudo com marcadores e post-its coloridos. Aquilo parecia um dicionário de tão organizado. Quando ia começar a anoitecer, já não tínhamos mais lanches e estávamos cansados para continuar.
— Então, continuamos na semana que vem? - Perguntei, animado, recolhendo as embalagens vazias.
— Claro que estarei aqui! Acho que temos um ótimo começo para nosso projeto.
Hanabi concordou como se não existisse nenhuma outra resposta possível para essa pergunta. Já Rey olhou para o horizonte onde o Sol se pôs por alguns segundos antes de responder.
— Se os lanches forem bons… Eu não odiei a tarde de hoje. Pelo menos não muito. — Acrescentou rapidamente, cruzando os braços.
Fomos cada um para sua direção. Naquela noite, Hanabi adicionou a nós três num grupo de mensagens no app do ENS. Rey demorou exatamente 3,14 segundos para sair do grupo. Eu cronometrei e mandei um riso para Hanabi.
Eu sentia que finalmente estava fazendo novas amigas. Planejei procurar por elas na segunda, quem sabe, conversar sobre coisas fora da história que criávamos.