Prólogo - Conversa no MuseuPrólogo - Conversación en el Museo

Este capítulo está etiquetado

Apto para Jóvenes Adultos
Este capítulo aún no está disponible en Spanish. Inicia sesión para traducirlo y que todos puedan disfrutarlo.

A primeira coisa que senti foi o formigamento característico em minhas têmporas. Abri meus olhos e um dragão furioso tentava me incinerar. Não me assustei nem um pouco. Era apenas um imenso mural cuja metade esquerda era ocupada por um dragão vermelho, enquanto que a outra metade era dividida entre as chamas desse dragão e um velho mago que usava todas as suas forças para se proteger do calor. Esse era meu local favorito no museu.

— Olá, Kael.

A voz cansada veio de trás. Virei-me. Lá estava ele — meu único amigo de verdade em qualquer mundo —, um senhor de chapéu-coco e óculos redondos, apoiado na bengala com o punho em forma de um pássaro, que eu sempre chamei de Senhor Museu.

— Escorregou de novo para Lorvindel? — perguntou, sentando-se no banco de mármore. — O que foi desta vez? Brigou com mais algum amigo?

Ele acenou para que eu me sentasse no banco de visitantes. O museu estava vazio, como sempre.

— Bom dia. Ou boa tarde. — Passei a mão no cabelo, ainda meio tonto. — Acabei de chegar e não faço ideia de que horas são.

Os “escorregões” sempre bagunçam minha cabeça.

— Mas você sabe… amizade não é exatamente meu forte. Não quando eu posso fazer… isso.

Abri os braços, menores do que eu esperava, indicando o salão inteiro.

— E eu nunca escorrego para um parque de diversões ou para a Fantástica Fábrica de Chocolates. É sempre um museu. Sem querer ofender.

O velho deu um sorriso simpático. Ele já tinha pego uma jarra estranha e servia dois copos de um chá que eu nunca poderia provar na terra. Ele falou de forma bem calma.

— A única ofensa aqui é você não me dizer diretamente qual o problema. Você continua vindo com esse corpo de criança. Está com quantos anos? A última vez que te vi, você tinha quinze.

— Dezessete. Ou dezoito? Não me lembro exatamente. Eu estava me preparando para as provas de faculdade, mas… — eu me calei por alguns segundos procurando as palavras corretas para explicar o que aconteceu. Como elas não vieram, resolvi aproveitar a boca aberta para tomar um gole do chá.

— Hum… seria um novo salto que deu errado? — Ele passava o dedo pacientemente pelo copo, aproveitando o calor que se espalhava pelo líquido. — Pensei que tivesse desistido deles.

— E eu desisti. Não foi um salto.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Então?

— Eu estou de mudança. — Respirei fundo. — Ganhei uma bolsa integral para uma escola… ou faculdade… não entendi direito. Parece uma mistura das duas.

Ele olhava pacientemente enquanto esperava que eu continuasse.

— Instituto Eternal Night Sky, ou ENS.

Meu velho amigo parou o copo a meio caminho para a boca quando mencionei este nome. Ele pousou o copo na mesinha à nossa frente e me perguntou, tentando disfarçar o tom sério.

— Aconteceu alguma coisa… anormal na sua escola? Contou a alguém sobre seus poderes? — Não importava o quanto ele tentasse, ele não conseguiria esconder de mim o quanto estava preocupado.

— Não contei para ninguém… bem… não exatamente.

Olhei novamente para o mural esperando uma saída fácil. “Poderia me dar uma carona, senhor dragão?”

— Kael?

— Eu mostrei.

— Mostrou?

Suspirei, decepcionado com o dragão.

— Então… é o que dá quando se mistura uma noite em claro jogando Final Fantasy e uma aula absurdamente chata sobre mitocôndrias. Acabei cochilando.

Ele franziu a testa.

— Sonhei que eu era o protagonista do jogo. A sensação era muito real. Eu conseguia sentir a roupa áspera na minha pele e o peso da espada na minha mão.

Fiz uma pausa.

— Acordei com o grito de uma garota que se sentava do meu lado. Depois, a sala inteira começou a gritar junta.

— E…?

— Eu estava usando as roupas do personagem.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

— Alguém viu você… como você chama mesmo? Fazer o puxão?

— Acho que não. — Dei de ombros. — Nos dias seguintes só falavam do “aluno maluco” que trocou de roupa no meio da aula sem ninguém perceber.

— E a escola?

— Vai bem, obrigado.

Ele me olhava com o rosto de “agora não”. Tomei coragem pra continuar. Tinha gosto de chá.

— Tentaram entender o que aconteceu. Depois me “convidaram” a estudar em casa por um tempo.

— E as roupas?

— Sumiram algumas horas depois, como sempre.

Ele assentiu devagar.

— E a carta chegou depois disso?

— Algumas semanas.

O Senhor Museu recostou-se no banco.

— Entendo.

— Minha mãe ficou feliz. — Dei uma risada curta. — Ela não parava de falar do quão bem conceituada é essa escola… instituição, sei lá. Ela acha que posso acabar virando alguém na vida, tipo um médico ou engenheiro.

— E você?

— Vou ser obrigado a decepcioná-la. Ainda estou considerando a carreira de adestrador de dinossauros.

Ele riu pelo nariz. Acho que vai ser o máximo que conseguirei desta plateia, já que o mago e o dragão ignoram cada palavra que eu digo.

— Você pode treinar dinossauros depois. Por enquanto, mantenha seus poderes em segredo.

Ele me encarou com aquele olhar de avô preocupado.

— E, Kael… não se deixe levar por ofertas boas demais. O poder dos saltos é perigoso. É fácil se perder procurando mais.

Revirei os olhos.

— Eu podia estar comendo chocolate com o Willy Wonka agora, mas nãaaaao. — Apontei ao redor. — Continuo escorregando para um museu.

Isso fez com que meu velho amigo desse um leve sorriso que nunca chegou aos seus olhos. Uau, um avanço!

— Meu jovem, não desista de amizades. Tenho certeza de que você encontrará alguém por aí tão excêntrico quanto você. Ou, quem sabe, alguém que o puxe de volta quando você começar a “voar alto demais”.

Abri a boca para responder, mas um bipe me distraiu. Logo depois, a dor nas têmporas voltou e o mundo ao redor começou a se dissolver.

---*-

O despertador do celular tocava na cabeceira da cama.

Abri os olhos para o ar abafado do meu quarto. Por um segundo tive a sensação de ter estado em algum lugar amplo, silencioso… com cheiro de chá quente.

Museu.

Dragão.

Chocolate?

Passei a mão no rosto. Havia aquele resíduo estranho na cabeça — a sensação de um salto.

Mas eu tinha certeza de que não fiz nenhum.

Eu tinha prometido parar depois de perder todos os amigos que já tive.

Levantei da cama, estalei as costas e olhei para a mala aberta no chão. Sobre a mesa, um envelope branco me encarava. O selo mostrava cinco estrelas rodeando as letras:

ENS.

Instituto Eternal Night Sky.

Uma frase me veio à mente: “Não se deixe levar por ofertas boas demais”.

Peguei o envelope. Parecia que ele estava me desafiando.

“Então, Kael… Como você vai estragar tudo dessa vez?

Toca un párrafo para aplaudir las partes que más te gustaron.

¿Qué te pareció?

Inicia sesión para aplaudir

¿Qué te pareció este capítulo?

Iniciar sesión para escribir una reseña también.

Reseñas

Aún no hay reseñas. Sé el primero.

Cap 1