제1화: 1 - O Novato1 - 신입

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청소년 소설 적합
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Eu estava parado no meio do corredor, mochila nas costas, cara de quem sabia exatamente o que estava fazendo.

Sempre fui especialista em passar despercebido. Figurante número três: presente o suficiente pra existir, irrelevante o suficiente pra ninguém reparar. Na minha cabeça, eu era o cara sarcástico de anime de nicho que observa tudo e nunca é o centro das atenções.

Infelizmente, isso não ajuda quando você está perdido no primeiro dia.

Eu analisava um pedaço de papel amassado na minha mão, um pequeno mapa que tinha feito com instruções que recebi do Troy na noite anterior. Nota mental: não confiar novamente nas instruções do meu colega de quarto para desenhar um mapa.

Como pode ser tão complicado encontrar uma sala de aulas numa escola?

Respirei fundo e parei o primeiro garoto que passou.

— Oi, bom dia. Preciso encontrar uma sala de aulas e meu GPS interno está em manutenção. Eu estou no… — consultei novamente o papel amassado. — Centro de Estudos Solaris?

Ele parou, piscou, piscou novamente e continuou me olhando como se eu fosse um alienígena falando em klingon. Resolvi mudar minha pergunta.

— Hum… você sabe onde fica a sala de aulas Rigel?

— Cara, é só usar o RA do ENApp.

Ele respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo e saiu rindo com outros dois alunos. Ótimo. Consegui. Já era o esquisito no primeiro dia de aula.

Voltei a circular pelos corredores e acabei na entrada do prédio. Poucos alunos passavam por ali, pois a maioria já se encontrava em suas salas. Quanto a mim, continuava olhando de um lado para o outro sem saber para onde ir.

Eu ainda ponderava minhas opções quando uma jovem professora ruiva apareceu no corredor, acenando para mim como se já soubesse exatamente quem eu era. Grandes óculos ocupavam metade do rosto, e a mão marcada de canetas entregava que ela provavelmente tinha brigado com algum quadro branco minutos antes.

— Ei, seria você o Kael?

A voz era animada demais para alguém trabalhando àquela hora. Ela vinha na minha direção com um sorriso aberto, acompanhada por uma garota da minha idade, de cabelos loiros presos em um rabo de cavalo alto e óculos amarelos em formato de gatinho. A garota não parava de olhar para baixo, como se o chão fosse imensamente mais interessante do que eu. Não que eu discordasse.

— Bom dia… professora Elara? — Perguntei e ela me respondeu com um aceno de cabeça enquanto ela balançava minha mão de maneira animada. Ufa. Não estou mais perdido… por enquanto. — Vejo que trouxe sua escudeira. Eu deveria ter trazido o meu?

A garota deu uma risadinha. Ela me parece ter o senso de humor tão quebrado quanto o meu. A professora revirou os olhos, colocou as mãos no quadril e falou depois de um suspiro e uma pequena risada simpática:

— Com esse senso de humor, definitivamente é o aluno transferido com quem eu conversei por telefone. Que bom que está bem disposto para seu primeiro dia. Devíamos ter nos encontrado na sala da coordenação, do outro lado do campus, meia hora atrás.

— Devíamos? — Repeti, erguendo uma sobrancelha

— Como você não apareceu, pensei que tivesse ido direto pra sala de aula.

— Eu… acho que me perdi. — Falei com um sorriso conformado, enquanto coçava minha nuca.

A professora olhou para o papel na minha mão e inclinou a cabeça para o lado.

— Por que não está usando o RA do App do ENS?

De novo isso, talvez fosse o momento para perguntar. Abri minha boca, mas ela continuou falando, agora olhando para a escudeira.

— Como você está, podemos assim dizer, pegando o bonde andando, eu vim te apresentar a representante da sua classe, Hanabi Evergreen.

A garota fez um pequeno aceno e cruzou os braços como se estivesse abraçando um travesseiro invisível.

— Ela é nossa estrela mais brilhante e dedicada e conhece todo o campus. Hanabi, este é Kael Cordelisten. Vou apresentá-lo à sua classe. Ela se chama Órion. Bem legal, né? — Ela deu um soquinho no ar ao falar o nome do herói grego. — A Hanabi vai te fazer um tour pelo instituto no horário do intervalo e explicar como algumas coisas funcionam por aqui. Por ora, venha comigo; vou lhe mostrar onde é a sala da sua classe.

Ela saiu andando na frente. Hanabi e eu seguimos atrás. Achei que seria um bom momento para quebrar o gelo.

— Prazer em conhecê-la, Hanabi-san. — Comecei.

— Sa-San? Por causa do nome japonês? — Ela riu levemente de maneira amável, e respondeu ao cumprimento sem olhar para o meu rosto. — Prazer em conhecê-lo, Kael… kun. — Disse como se fosse um esforço manter a piada.

— Então, hum… você é a representante de classe, certo? Deve ser bem popular entre os colegas.

— Na verdade… — o sorriso sumiu de seu rosto — o representante é escolhido pelo corpo docente. Eles têm suas próprias métricas e a popularidade não faz parte delas, senão não teria como eu ter sido escolhida.

Nesse momento eu conseguiria cortar o “climão” com uma faca. Falei um “desculpe” meio entre os dentes que a deixou com o rosto vermelho. Não consegui pensar em mais nada a dizer nos próximos minutos.

Quando eu mais preciso de uma piada…

A professora nos levou até a porta. Um grupinho de alunos entrou em silêncio assim que ela sinalizou.

— Bom dia, turma Órion! — Ela deu um soquinho animado no ar. — Vocês já receberam a notificação sobre a nova estrela se unindo à sua constelação. Conheçam Kael Cordelisten.

Hanabi se encostou na porta. Esperta. Eu, idiota, fiquei ao lado da coordenadora. Ela me puxou para o centro da sala como se eu fosse o troféu do dia.

— Kael, que tal se apresentar?

Antes que eu pudesse fugir, a porta se abriu. Um professor Paulo entrou distraído, carregando um tablet e um pôster de Jurassic Park com velociraptors emplumados — pareciam galinhas gigantes.

— E aí, pessoas, essa é mais uma aula… — Ele congelou ao ver a coordenadora e tentou esconder o cartaz com o corpo.

— Professor Paulo… — Elara massageou a testa. — Acredito que velociraptors não estão na ementa.

— Ainda não — ele sorriu. — Mas encontrei um jeito de encaixar.

— Vamos lá fora. Precisamos conversar sobre a ementa de biologia… e sobre a duração das suas aulas.

Ela saiu arrastando o professor. De repente, eu estava sozinho diante de vinte pares de olhos.

Perfeito. Plano A (passar despercebido) destruído.

A maioria dos alunos tinha a mesma expressão: vergonha alheia. Conheço muito bem.

Tentei bolar um plano de fuga, mas todas as minhas ideias envolviam uma bomba de fumaça e um “salto”. Infelizmente, eu estava sem bombas de fumaça. Ouvi uma fungada da esquerda. Estava com medo de que até meus pensamentos pudessem ser ouvidos naquele momento.

— Bom dia… turma? — Palavras começaram a sair descontroladas, sem que eu planejasse qualquer coisa. — Meu nome é Kael… acho que vocês já sabem disso. Eu fui transferido e… vocês também já sabem disso.

Legal. Estou indo bem. Se eu completar com a informação de que hoje é uma segunda-feira, completo a trinca de informações inúteis. Vamos lá, diga algo de útil.

— Espero que possamos ser amigos… — Sério, cérebro? Isso é tudo o que pode conseguir?

Uma garota sentada no fundo revirou os olhos com tanta força que quase os lançou pela janela, balançando seu longo cabelo que chamava a atenção imediatamente por causa das mechas roxas. Logo depois, ela bufou. Me parecia que eu a tinha ofendido pessoalmente com a ideia de ser minha amiga.

— Amigos? Ah, vai nessa. No máximo, posso te usar para limpar meus pés.

Ela me olhava com olhos amarelos cerrados que pareciam ameaçar três gerações da minha família. Suas roupas largas e relaxadas contrastavam fortemente com as roupas impecáveis de Hanabi e de alguns outros alunos que se sentavam mais à frente. Era um pouco difícil ver as duas frequentando a mesma sala de aula. O grupinho ao redor dessa garota riu do deboche.

Ok. O plano A de passar despercebido falhou e, agora, o plano B de improvisar também. Nenhuma ideia boa. Bombas de fumaça continuavam aparecendo na minha mente. Que tal tentar um elogio?

— Prazer em conhecê-la… hum… qual seu nome mesmo? Gostei das mechas roxas em seu cabelo

Percebi imediatamente que o elogio e a pergunta não foram exatamente bem recebidos pela garota. O grupinho ao redor começou a olhar para ela, esperando uma resposta. Ela bufou novamente, descruzando os braços e se aproximando com um passo deliberadamente lento, como uma predadora avaliando uma presa, o que foi bem acentuado por seus olhos amarelos, agora realmente intimidadores.

Ela se aproximou, tampando o sol que entrava pela janela, o que fazia seu cabelo brilhar, dando-lhe um ar ainda mais afiado e imprevisível. Seus lábios se curvaram em um sorriso sarcástico, mas havia um brilho fugaz em seus olhos – talvez irritação, talvez algo mais.

— Que é isso, novato? Você acha que pode falar comigo no primeiro dia? Meu nome e minhas mechas não são nada que você deveria ter nessa cabeça oca. Vai se ferrar, vai.

Seu grupo de rebeldes parecia que tinha acabado de presenciar um gol do seu time favorito.

— Na próxima vez…

A Miss Simpatia começou uma ameaça, mas os professores abriram a porta bem na hora. Ela me deu um último olhar ameaçador e voltou para sua carteira.

— Tá bom, professor Paulo. Me convenceu. — A professora Elara parecia cansada enquanto voltava pra sala. Ela olha para a garota a caminho de sua mesa e depois para mim.— Ah, Kael, parece que conheceu a Rey Lancaster. Ela é uma de nossas estrelas mais… espirituosas. Bem, é isso. Pode procurar um lugar vazio.

Ela se voltou para o professor.

— Agora, eles são, oficialmente, problema seu. Se toda apresentação de aluno fosse assim, eu teria que me aposentar cedo por insalubridade.

Me sentei em uma mesa desocupada ao fundo… do lado oposto ao grupo rebelde. Peguei um caderno e canetas para anotação… enquanto todos os outros abriam uma tela… que saía da mesa… e puxavam um teclado… Alguns me olharam como se eu tivesse vindo de Marte. Ou da roça. Já me sentia o Chico Bento.

— Bem, pessoas, vamos começar a aula. Kael, meu nome é Paulo Pirula; sou professor de biologia e oriento alunos na área de paleontologia. Espero que goste da minha disciplina.

Na hora do intervalo, vi que Hanabi terminava suas anotações. Parei na porta para esperá-la e vi Rey passando por mim. Ela bocejou de maneira tão graciosa que nem me parecia aquela rebelde que me ameaçou diante da turma inteira.

Quando terminou, Hanabi me viu esperando, deu um sorriso e depois se lembrou de que eu era feito de carne e osso. Seus ombros tensionaram por um segundo antes de ela voltar a olhar para o chão. Odiava a ideia de tirar toda a atenção que ela dava ao chão, mas precisava cobrar uma promessa.

— Bora, Hanabi-san? Acho que você está me devendo um tour pelo campus.

Ela olha para mim, novamente, antes de perguntar.

— San? Continuou com o sufixo?

Dei de ombros.

— Por que não? Achei divertido. Além disso, a culpa é dos seus pais por te darem um nome oriental.

Ela deu um sorriso sincero enquanto ajeitava os óculos.

— Sim… Hanabi Evergreen. Não combina nem um pouco o nome japonês com o sobrenome americano da família. Mas meu pai gosta muito da cultura oriental. Não sei como ele não mudou o próprio nome para Seiya ou Kenshin.

O olhar dela para mim foi natural e um sorriso sincero se abriu enquanto ela mencionava o pai. Quando terminou, ela olhou para garotas passando pelo outro lado do corredor, e o sorriso murchou até ficar uma pequena expressão conformada.

— Então… vamos, Kael-kun? Vamos começar pela estátua do fundador. Acho um bom ponto para explicar a filosofia do ENS.

Chegamos, então, a uma estátua no centro do campus. Era uma figura imponente de bronze, representando um homem elegante em um casaco longo e texturizado, com um chapéu fedora inclinado sobre olhos sombrios e enigmáticos. Em uma mão, ele segurava uma bengala fina, encimada por uma águia estilizada com asas semiabertas, simbolizando, talvez, visão ou mistério? A base era gravada com inscrições antigas, e o ar ao redor parecia mais fresco, com folhas sussurrando no vento arborizado. Abaixo da estátua tinha o nome e algumas inscrições:

— Estelai aeternaliér lucenti super umbras — li as palavras com uma pronúncia bem literal. — Sei que li isso antes, mas não sei o que significa.

— Stellae aeternaliter lucent super umbras.

Hanabi leu numa pronúncia perfeita — eu acho — não para se gabar, mas com um tom bem amigável, como se estivesse feliz em compartilhar o conhecimento.

— “Estrelas que brilham eternamente sobre as sombras”. Esse é o nosso lema. Apesar de eu não gostar muito.

— Mesmo? Por que? Me parece um lema condizente com uma instituição de ensino.

— Bem… ele me parece ambíguo, como se tivesse um duplo significado oculto… mas isso não é importante. Nenhum professor parece concordar com isso.

Ela desconversou rapidamente balançando uma das mãos no ar como se quisesse apagar o que acabou de dizer.

— Voltando. Você deve ter percebido pelas falas da professora Elara que os alunos são referidos como “estrelas”, com a ideia de mostrar que…

— Só brilham à noite?

— Não, a ideia…

— É que estão longe e inalcançáveis?

— Vai me deixar continuar a explicação?

Ela mal conseguia parar de rir pra continuar a falar. Isso lhe deu uma pequena liberdade.

— Voltandooo. O método foi idealizado pelo falecido Dr. Enoch Voidwalker e tem foco em buscar mentes excepcionais: pessoas esforçadas, pessoas brilhantes, pessoas criativas ou mesmo pessoas com talentos únicos. Jovens são convidados de todo o país para vir, desde que sejam pessoas que o conselho do instituto considere… interessantes.

— Tipo o meu talento para comediante?

— O INSTITUTO — Hanabi continuou falando um pouco mais alto, abafando as risadinhas. — Promove o contato prolongado de ex-alunos para pesquisas e os contatos tanto do instituto quanto de ex-alunos permitem a entrada no mercado de trabalho daqueles que assim desejarem. Por isso, não se espante em ver gente bem… importante visitando o campus ou até mesmo convidando alunos para estágios ou bolsas.

— Interessante. — Eu sorri, coçando a nuca. — Então eu sou uma estrela novata que ainda brilha só quando alguém liga o interruptor errado?

Hanabi riu baixinho, o brilho ainda nos olhos, mas dessa vez não cortou o assunto.

— Algo assim. Bem, para onde nós vamos agora? Talvez o prédio principal?

A caminhada até o prédio principal, no oeste do instituto, não foi nada longa. Aparentemente, a “Praça Estelar”, local onde ficava a estátua, é o ponto central e fica relativamente próxima de tudo no campus.

— Este é o Centro de Estudos Equador. — A garota apontou enquanto nos aproximávamos de um prédio grande com uma abertura enorme. Alunos entravam e saíam com bastante frequência. — Normalmente nós só nos referimos a ele como prédio principal, ou Equador.

Entramos no saguão do prédio. Hanabi pegou seu celular, abriu o app do ENS que eu conhecia por alto. Logo depois ela acionou alguma funcionalidade, abrindo a câmera e mostrando diversos pontos “por trás das paredes”.

— Péra… esse é o RA do app do ENS? — Perguntei incrédulo.

— Sim, Kael-kun! Essa é a função de Realidade Aumentada do ENApp — respondeu ela, com os olhos brilhando um pouco mais atrás dos óculos de gatinho. — Ah… isso explica por que estava perdido horas atrás. — Ela deu uma risadinha que acabei acompanhando. — Entendo bem que não conheça, já que é seu primeiro dia, mas… cuidado pra quem pergunta esse tipo de coisa. Pro pessoal daqui, o app é quase parte do corpo e você pode ser visto… diferente. Depois te mostro como encontrar qualquer prédio ou sala por aqui. Sem o RA vai ser impossível no começo.

Hanabi se voltou ao app e me mostrou os locais do prédio enquanto virava o celular na direção de cada local. Suas falas eram bem eloquentes, tipo: “É uma cafeteria” ou “Aqui fica a secretaria”, até avistarmos a biblioteca se materializando com uma estrela dourada preenchida no topo. Olhei para ela e havia um brilho por detrás dos óculos de gatinho.

— E como é a biblioteca? Me parece ser um local de que você gosta.

Percebi, no rosto da garota, a caixa de Pandora que havia aberto. O rosto dela se iluminou como se eu tivesse acendido um holofote. Ela parou no meio do saguão, os olhos arregalados atrás dos óculos de gatinho.

— Ahh, ela é enorme, tem mesas para estudos em grupo, pequenas salas para estudo individual, poltronas confortáveis…

Ela ficou uns minutos falando sem parar, com a voz ficando cada vez mais animada, sobre a cafeteira, as seções de literatura clássica, quadrinhos, mangás, pesquisas, salas de estudo individuais… depois de algum tempo, ela simplesmente começou a andar. Se eu não fosse atrás, eu teria sido abandonado.

Antes de entrar na biblioteca, ela se lembrou de que precisava respirar. A pausa a fez perceber o quanto tagarelava.

— Desculpa, eu… não costumo falar tanto assim. A maioria das pessoas fica… incomodada. Minha única amiga de verdade aqui é a bibliotecária – ela me deixa ficar até tarde, lendo sozinha ou estudando.

Pode ser por eu ter acabado de conhecê-la, mas não achei a tagarelice dela tão ruim assim; respondi com um aceno empático:

— Não se preocupe, Hanabi-san. Eu também gosto de livros.

A garota entendeu isso como um sinal verde. Seus olhos brilharam atrás dos óculos de gatinho e ela voltou a falar ainda mais rápido. Segui a garota, a vi dando um aceno para uma senhora cujos olhos brilharam ao vê-la.

O cheiro de café recém-passado e papel velho chamou minha atenção para o fato de… já termos entrado na biblioteca. Olhei novamente para a garota que ainda disparava nomes de livros como se fossem bons amigos. Ela pegava os volumes, um a um, nas estantes sem nem procurar e colocava nos meus braços em completo piloto automático.

De repente eu estava com uma pilha de livros nos braços: Senhor dos Anéis, Harry Potter (sete volumes), Roda do Tempo, Nárnia, Torre Negra, Percy Jackson, Fullmetal Alchemist… quando foi que chegamos aos mangás? Quando ela citou One Piece, um pensamento me passou pela cabeça de uns 100 volumes de mangá se empilhando nos braços.

A distração que veio com o pensamento trouxe consequências. A garota já trazia uma outra coleção de livros, acho que Stephen King, e tentou colocar na pilha nos meus braços sem olhar, o que derrubou vários deles no chão com um baque surdo na biblioteca silenciosa.

Hanabi congelou por um segundo, com as bochechas coradas e os óculos embaçando levemente, mas, mesmo assim, não soltou os livros que ainda segurava contra o peito.

— Ai, não... — murmurou ela, já se abaixando para recolher os volumes espalhados pelo chão de madeira. Larguei a pilha que sobrou nos meus braços numa mesa próxima e fui ajudar.

Foi quando uma voz familiar resmungou atrás de nós, com aquele tom de quem já viu o mesmo filme umas mil vezes.

— Tsc, Hanabi… de novo?

As mechas roxas chamam minha atenção de imediato. Rey apareceu como se tivesse se materializado de dentro de uma estante. Ela tinha um olhar de quem preferia estar em qualquer outro lugar, ainda assim, se ajoelhou ao nosso lado e começou a recolher os livros mais próximos. Ela fazia questão de não esconder a irritação, empilhando os livros com mais força do que o necessário.

— Tá ligada que a velha ali te deixa fazer o que quiser, né? — Continuou sem nem olhar para nós. — Mas aqui tô eu, passando do seu lado quando a quatro olhos resolve dar uma de avalanche de livros. Adivinha quem vai ter que pagar o pato se ela colar aqui logo agora? Exato! Eu.

Eu pegava um exemplar de It do chão quando deixei os pensamentos intrusivos tomarem conta de mim.

— Não sabia que a Princesa dos Espinhos gostava tanto de livros.

Rey, nesse momento, dividia uma pilha de livros em duas para evitar que caíssem novamente. Ela olhou para mim e deu uma nova bufada. Ou revirou os olhos novamente. Talvez tenham sido os dois.

— Ahh! Se eu soubesse que esse idiota estaria aqui, teria ido bater minha cabeça na parede da ala leste. Seria mais divertido. Escute aqui, novato… — a voz dela saiu baixa, controlada e perigosa. Tenho certeza de que ela tinha uma excelente ameaça preparada, mas ela soltou o ar que tinha no peito lentamente e falou um pouco mais baixo. — Só não transforma o lugar mais quieto do campus numa convenção de idiotas e eu posso continuar fingindo que você não existe. Tendeu?

Eu levantei as mãos em rendição, mas não consegui segurar o sorrisinho. Rey bufou, me golpeou no peito com o último livro que tinha em mãos e se afastou resmungando qualquer coisa sobre "nerds idiotas" e "livros demais". Mas em vez de sair da biblioteca, ela foi até uma poltrona no canto mais afastado, pegou um livro fino de uma estante próxima e se jogou nela com a graça de quem não quer admitir que está ficando.

Hanabi, ainda corada, me lançou um olhar de desculpas misturado com uma diversão que ela tentava esconder.

— Desculpa… eu me empolgo mais que o normal quando falo de livros.

Eu sorri, ajustando a última pilha sobre a mesa.

— Sem problemas, Hanabi-san. Até que foi divertido.

Ela piscou, surpresa, e o sorriso que abriu foi pequeno, genuíno, daqueles que chegam devagar e ficam. Do canto da biblioteca, Rey virou uma página com mais força do que o necessário.

Hanabi finalmente voltou a si depois disso, abaixando novamente o rosto com a timidez tradicional. O som distante de páginas virando ecoava, como se os livros estivessem sussurrando segredos. Foi quando um homem de meia-idade, com cabelo grisalho curto e um ar calmo, se aproximou da mesa, carregando uma pilha de volumes antigos. Ele sorriu levemente, ajustando os óculos finos no nariz.

— Pretendem ler todos estes de uma vez ou vão esconder para que ninguém mais os encontre?

Disse o professor com uma voz suave e acolhedora. Eu olhei e vi o professor de Literatura Fantástica — que escola tem aulas de Literatura Fantástica? — Aiden Crowe, aquele que me recebeu como estudante há dois dias, quando cheguei.

— Ah, olá, professor. Pretendia esconder, mas não deveria haver testemunhas. Como fazemos? Aceita suborno?

O professor deu uma risada rápida e depois me cumprimentou diretamente.

— Olá… Kael, certo? É bom vê-lo novamente. Como está sendo dividir o quarto com o Troy?

— Excelente. Ele tem sido muito legal comigo. Por falar nele, ele gosta muito do senhor.

— Espero que ele goste mesmo. Tenho passado mais de dez horas por semana orientando-o. — Logo em seguida ele se vira para a tímida aluna do outro lado da mesa. — É sempre um prazer encontrá-la, Hanabi. Saiba, Kael, que Hanabi é minha melhor aluna. Só lamento não tê-la no meu clube de leitura.

As palavras do professor me trouxeram um grande estranhamento, mas Hanabi respondeu com uma porção extra de encabulamento por causa do elogio.

— Olá, professor Aiden. Me desculpe, não funcionou pra mim. Mas para você, Kael-kun, pode ser uma ótima oportunidade para conhecer outras pessoas.

— Hanabi… uma leitora como você… por que não faz parte de um clube de leitura como este? — Minha pergunta foi cem por cento sincera, mas temi ter tocado em alguma ferida.

Ela ficou calada por um tempo, olhando para baixo como se tivesse deixado cair a capacidade de falar.

— Eu… não consigo me dar bem com muitas pessoas. — Confidenciou Hanabi — Fico muito empolgada, fazendo mapas e pesquisas sobre nomes, genealogias… Uma vez, em um clube antigo, eu fiz um mapa inteiro de um mundo fictício, e todos acharam exagerado… Saí antes de me pedirem. A Sra. Yamada é a única que consegue aguentar meus exageros.

Ela me parecia sincera em sua fala, mas algo em seu rosto me fazia me perguntar se havia algo mais que ela não estava me contando.

— Hanabi… — o professor quis insistir. — Não será como as outras vezes. A maioria dos alunos não se incomodam com sua empolgação.

Olhei para a garota e seu rosto mostrava que ela não acreditava naquelas palavras.

Comecei a pensar no grupo de leitura como uma real possibilidade, mas algo ecoou em minha mente: “Não desista de amizades. Tenho certeza de que você encontrará alguém por aí tão excêntrico quanto você.” Quando me dei conta, estava sugerindo algo que nem eu mesmo sei o que é e de onde surgiu.

— E se fizermos um grupo um pouco diferente? Quero dizer, gosto de histórias e suas pesquisas podem ser de grande ajuda para algo um pouco fora do convencional. Em vez de um clube de leitura, poderíamos criar nossa própria história. Uma história com ação, aventura, mistério… O que acha da ideia?

As palavras foram saindo de forma automática. Os saltos me davam uma ideia muito boa de como criar uma realidade diferente, pois é o que eu fazia todas as vezes, além disso, isso me ajudaria a botar os sonhos esquisitos que ando tendo num papel e, talvez, tirar de minha cabeça.

Um arco-íris de emoções rodou o rosto da garota: descrença, incredulidade, empolgação, medo, alegria, medo novamente.

O arrependimento bateu de forma que eu queria poder dar um Control + Z e desfazer minha última ação. Na hora em que abri a boca para pedir desculpas, as palavras da Hanabi me cortaram:

— Criar uma história? Nossa? Você tem certeza de que quer fazer isso comigo? Digo… que ideia… incrível! Podemos fazer um mundo de fantasia, que tal estilo D&D? Eu posso fazer toda a pesquisa que quiser. Inventar nomes, lugares, mapas… é fantástico! Um enredo de guerras históricas, criaturas mágicas…

Ela continuou murmurando ideias por um tempo e eu fiquei ali, de queixo caído com a aceitação da garota. Ela rodou os olhos como se buscasse mais inspiração e os pousou sobre o professor e mim. Do nada sua timidez voltou, agora com toda a potência que tinha acumulado nos últimos minutos. Ela, então, resolveu pegar um livro de uma prateleira próxima e começou a folheá-lo como se nunca tivesse visto um livro na vida. Devia ser muito interessante esse tal de “Anatomia e Fisiologia de Moluscos”.

— Ha, ha. — Riu com gosto o professor Aiden. — É realmente uma ideia muito boa. De onde tirou essa ideia, Kael?

Beleza. Como eu respondo sem ser descoberto? Pelos próximos cinco segundos minha mente rodou de forma a conseguir arranjar uma desculpa aceitável para o esperto professor na minha frente… que esqueceu da pergunta e continuou falando.

— Acho que um pouco de ação fará bem à história de vocês. Não me levem a mal, mas não me parecem do tipo que descreveriam boas cenas de luta. Acho que posso resolver este assunto. Kael, como foi sua a ideia, você está encarregado de levar os lanches. Prepare para três.

— Hum… tudo bem? — Assenti? — Próximo sábado de manhã? Acho um bom horário.

— Sim. — Concordou Hanabi sem tirar os olhos do livro. Ela deve gostar muito de moluscos. - A cafeteria da ala leste do campus fica ao ar livre. Seria um bom lugar para nos encontrarmos. - Ela esticou o braço esquerdo apontando para o sul. O professor moveu o braço dela para a direção correta.

— Há! Bom lidar com alunos tão decididos. Vou registrar como um grupo oficial do ENS. Vocês devem receber uma notificação logo que for aprovado. — Ele parou um segundo para pensar. — Devem precisar fazer um relatório de vez em quando, mas o importante é se divertirem.

Depois de dizer isso, o professor simplesmente começou a sair, ainda falando sozinho.

— Que cabeça interessante desse garoto. Onde já se viu? Criar um grupo para escrever uma história de fantasia… Essa é nova até para os padrões do ENS.

O professor desapareceu no corredor, ainda murmurando. Hanabi, ao meu lado, tinha largado o livro sobre moluscos na mesa e sussurrava termos de D&D como se fossem orações: “protagonista maga… grimório vivo… mapa arcano…”. Sua voz era baixa, quase um zumbido, mas cada palavra vibrava no ar como um feitiço.

Pensei em falar algo, mas uma frase saiu de sua boca, quase sonhadora:

— …uma maga de vestido branco, com chamas vermelhas dançando na barra…

A dor explodiu nas minhas têmporas como um raio quente. O mundo inclinou. Pisquei uma vez e, de repente, Hanabi não estava mais ali com o rabo de cavalo loiro e os óculos de gatinho.

No lugar dela, uma figura etérea: vestido branco longo, fluido, com chamas vermelhas vivas lambendo a bainha como se o tecido estivesse queimando sem se consumir. Um grimório de capa preta flutuava ao lado dela, páginas virando sozinhas, emitindo um brilho azul-elétrico. O cheiro de pergaminho antigo e fumaça doce invadiu minhas narinas. O ar ao redor dela ficou quente, quase sufocante.

Esfreguei os olhos com força. A visão se dissolveu num piscar, deixando apenas Hanabi real — corada, segurando o livro de moluscos como se fosse um escudo.

Mas o calor residual ainda queimava minha pele. O coração batia descompassado, como se alguém tivesse cravado uma lâmina invisível no meu peito.

Por mais que a ideia do grupo fosse empolgante, um medo gelado se espalhou por dentro de mim.

Pensar demais na criação de um mundo fantástico não é a melhor das ideias… quando você pode, realmente, criar um.

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