باب 1باب 1

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A chuva caía como lágrimas de ferro sobre a Estrada dos Afogados, e Vorn Lachrym avançava por ela como se o próprio mundo tivesse se tornado um único e contínuo lamento. Não era água o que descia do céu naquela noite — pelo menos não apenas água. Havia algo mais naquela precipitação, algo viscoso e antigo que se agarrava à pele, deixava um rastro prateado quando escorria e impregnava a respiração com um gosto metálico de sangue velho e sal. Os aldeões da região chamavam aquilo de “lágrimas de Mor’thu” e evitavam tocá-las a qualquer custo. Diziam que quem as sentisse por tempo suficiente começava a ouvir as vozes dos afogados — aqueles que haviam morrido nos pântanos ao redor da Catedral de Vel’Sharoth, arrastados para as profundezas por mãos que ninguém via, mãos que apertavam tornozelos e puxavam para baixo enquanto a lama fechava a boca e a luz do dia se afastava para sempre. Vorn Lachrym não se importava com as vozes dos mortos. Ele já as ouvia há sete anos, desde a noite em que pegara a espada e o mundo se tornara um pouco mais estreito e um pouco mais escuro.

A estrada que levava à catedral era pouco mais que uma trilha de lama e ossos quebrados, serpenteando entre árvores mortas cujos galhos se retorciam como dedos de enforcados. Nenhum pássaro cantava naquela região. Nenhum inseto zumbia. Apenas o som monótono da chuva, o esmagar de botas na lama e o sussurro constante que vinha da espada presa às suas costas, uma lâmina longa e negra chamada Lamento, cuja voz era tão familiar quanto o batimento do próprio coração.

— Você está perto — dizia a voz, baixa, quase carinhosa, como se estivesse falando a um amante. — Sinto o pulso dele sob a terra. Como um coração doente batendo em um peito apodrecido. Você sente também, não sente? Aquele formigamento na cicatriz. Aquele gosto de cinzas na boca.

Vorn não respondeu. Ele havia aprendido, ao longo dos anos, que responder apenas encorajava a voz. E a voz, quando encorajada, tornava-se… criativa. Começava a descrever as coisas que ele preferia esquecer: o cheiro do sangue do pai no chão da cozinha, o peso do corpo da mãe nos braços, a forma como o medalhão dos Caçadores de Relíquias de Aldramar brilhava sob a luz das tochas enquanto Dorian ria e dizia que tudo ia ficar bem. Vorn puxou o capuz de couro encerado mais sobre o rosto, protegendo os olhos da chuva ácida. A cicatriz vertical que cortava seu olho esquerdo — do sobrolho até a maçã do rosto, uma linha pálida contra a pele morena — latejava com a umidade. Era uma ferida antiga, mas nunca cicatrizava completamente. Nunca permitia que ele esquecesse. Cada gota que escorria por ela parecia abrir a pele de novo, como se o próprio tempo se recusasse a deixar a marca desaparecer.

À frente, a estrada se abria em uma clareira. No centro dela, uma forca. O corpo pendurado nela estava ali há tempo suficiente para que os corvos tivessem feito seu trabalho, mas não tanto que os ossos tivessem caído. Restava o suficiente para identificar: um homem, alto, vestindo os restos de uma túnica que já fora azul. Um medalhão pendia de seu pescoço, balançando ao vento, e o metal emitia um som seco cada vez que batia contra o peito oco.

Vorn parou. A chuva escorria pelo queixo e pingava no colarinho da capa. A voz da espada soou de novo, desta vez com um tom de falsa curiosidade.

— Conhece ele?

Vorn não respondeu. Seus olhos estavam fixos no medalhão. Era um símbolo familiar — uma estrela de sete pontas dentro de um círculo. O símbolo dos Caçadores de Relíquias de Aldramar. A guilda à qual ele próprio pertencera, antes de tudo desmoronar. Antes do sangue no chão. Antes da espada. Antes das vozes.

— Ora, ora — continuou a voz, e agora havia um prazer quase sensual na maneira como as palavras se formavam. — Parece que alguém chegou antes de você. Alguém que também procurava a catedral. Que coincidência deliciosa.

Vorn se aproximou da forca. A corda rangeu com o vento. O corpo balançou levemente, como se estivesse vivo, como se estivesse tentando falar. Ele reconheceu o rosto então — ou o que restava dele. A mandíbula estava deslocada, um olho faltava, a pele do pescoço havia escurecido e encolhido, mas a cicatriz em forma de meia-lua no queixo ainda estava lá.

Dorian Vex.

Dorian tinha sido seu parceiro. Não um amigo — Vorn não tinha amigos — mas um parceiro. Eles haviam caçado juntos por três anos, dividido perigo e sangue, salvado um ao outro mais vezes do que qualquer um dos dois poderia contar. Dorian era o tipo de homem que ria na cara do perigo, que fazia piadas enquanto sangrava, que acreditava que o mundo podia ser consertado se alguém apenas se esforçasse o suficiente. Dorian acreditava em muitas coisas. Acreditava em redenção. Acreditava em segunda chance. Acreditava que Vorn ainda podia ser salvo.

Agora, Dorian estava morto, pendurado como um aviso, e Vorn sabia exatamente o que isso significava.

— Ele veio atrás de você — disse a voz, e desta vez o tom era quase compassivo, o que tornava tudo pior. — Veio te salvar, talvez. Ou te impedir. Difícil dizer com esses tipos heroicos. Eles sempre confundem as duas coisas.

Vorn fechou os olhos por um momento. Quando os abriu, não havia tristeza neles — havia algo mais frio, mais calculado. A tristeza havia sido queimada dele há muito tempo, junto com tudo o mais que o tornava humano. Ele cortou a corda com um movimento rápido da faca. O corpo caiu no chão com um baque úmido, e a lama espirrou nas botas de Vorn. Ele se ajoelhou ao lado do cadáver, fechando os olhos do morto com dois dedos. A pele estava fria e escorregadia.

— Eu sinto muito, Dorian — murmurou ele. — Você não devia ter vindo. Eu te disse para não vir.

— Emocionante — disse a voz, sarcástica. — Agora podemos seguir? O Coração de Vel’Sharoth não vai esperar para sempre. E eu estou com fome.

Vorn se levantou. Ele removeu o medalhão do pescoço de Dorian — não por sentimentalismo, mas porque poderia ser útil. O metal estava quente ao toque, como se ainda carregasse o calor do corpo. Depois, sem olhar para trás, continuou seu caminho. A catedral o aguardava, e o passado podia apodrecer na lama junto com o resto.

A Catedral de Vel’Sharoth se erguia contra o céu como uma ferida aberta. Não havia outra maneira de descrevê-la. Suas torres góticas, outrora majestosas, agora se inclinavam em ângulos impossíveis, como se estivessem derretendo sob o peso de séculos de maldições. Os vitrais quebrados brilhavam com uma luz interior doentia — vermelho, púrpura, verde biliar — projetando padrões que se moviam nas paredes externas como vermes rastejando sobre pedra. Vinhas negras cobriam quase toda a estrutura, mas não eram vinhas comuns. Elas pulsavam. Tinham espinhos que pareciam dentes. E quando o vento passava por elas, emitiam um som que era quase um sussurro, quase uma canção de ninar cantada por gargantas que já não tinham língua.

Vorn parou diante dos portões de ferro. Eles estavam enferrujados, retorcidos, mas ainda fechados. Correntes antigas os selavam, mas as correntes estavam quebradas — não por força, mas por algo que as havia corroído de dentro para fora. O metal tinha marcas de dedos, como se alguém tivesse agarrado as barras e apertado até que o ferro cedesse. As marcas eram profundas demais para serem humanas.

— Interessante — disse a voz. — Parece que alguém chegou antes de nós. E não saiu. Que pena. Eu gostava de surpresas.

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