Chapter 2: 2 - O Ser Invisível2 - The Invisible Being

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Uma floresta se estendia ao meu redor.

O vento atravessava as árvores altas e o som que fazia parecia palavras soltas, cochichadas entre folhas antigas. A mata era fechada; pouca luz atravessava os galhos, mas meus olhos enxergavam bem o suficiente, como quando nos acostumamos à claridade prateada de uma lua cheia.

Aquilo não parecia exatamente um sonho. Também não parecia um salto.

Escorregão.

A palavra veio imediatamente à minha mente. Olhei para minhas mãos. Não havia nada nelas. Tentei falar, mas nenhum som saiu da minha garganta.

Então ouvi passos. Chinelos se arrastavam pela terra úmida num ritmo lento e cansado.

— Eu deveria saber que estaria aqui... — A voz chegou fragmentada, como se o vento a trouxesse em pedaços.

Uma pequena silhueta surgiu entre as árvores. Um velho caminhava devagar até uma clareira escondida entre raízes grossas.

— Ledo engano pensar que poderia ter alguns minutos de sossego no Berço, enquanto medito.

Uma risada baixa respondeu logo adiante.

Havia outro homem ali, sentado sobre uma pedra coberta de musgo. Pequeno também. Conseguia distinguir que ele segurava um grande cajado entre as mãos.

— Se eu soubesse que encontraria você aqui — respondeu a segunda voz, debochada — teria preferido enfiar minha mão numa colmeia de abelhas.

Os dois riram baixinho. Não parecia humor verdadeiro. Parecia cansaço antigo.

O recém-chegado aproximou-se mais.

— O que o traz aqui, velho amigo?

A figura com o cajado demorou alguns segundos para responder.

— Preocupação com o equilíbrio. Talvez o Criador queira me mostrar algo… mas você sabe como Ele é. Nunca guarda todos os livros na mesma estante.

As árvores rangeram suavemente acima deles.

— Tive uma conversa com um aprendiz recentemente — cortou o silêncio o recém-chegado. — Ele vem e volta de Lorvindel há anos, sempre carregando problemas maiores do que deveria carregar sozinho. Mas desta vez…

A frase se perdeu no vento.

Meu peito apertou.

— Agora ele está indo para o Céu Eterno.

A figura com o cajado permaneceu imóvel por alguns instantes.

— O garoto anseia por amizade mais do que entende — continuou a voz cansada. — Mas temo que aquele lugar destrua a pouca confiança que ainda resta nele.

— Ou talvez devolva.

O velho recém-chegado soltou uma risada baixa.

— Você sempre tenta ler o último capítulo antes da metade da história.

A figura com o cajado suspirou.

— Eu queria acreditar nisso.

Por alguns segundos, só ouvi o vento soprando entre as árvores.

— As sombras começaram a agir novamente. — Voltou a falar a figura com o cajado.

A floresta pareceu escurecer ao redor deles.

— Enviaram um idiota… mas um idiota eficiente. Ele cresce rápido demais. Ambição sem direção sempre encontra algo pior para servir.

— As guildas e os dragões já viram os sinais?

— Viram o bastante para ignorar. Orgulho e conforto costumam cegar melhor do que escuridão.

O silêncio voltou, pesado como a umidade do bosque.

— A história está se repetindo bem diante dos nossos… dos seus olhos.

Aparentemente, o velho do cajado fez uma piada muito boa, pois ambos começaram a rir. Logo depois, ele voltou a falar:

— Até as Visões do Destino parecem vacilar. Eu vejo os sinais, mas não os caminhos. Não como antes. — A figura com o cajado apertou os dedos contra a madeira. — Sempre coube a mim preparar os escolhidos antes que o mundo exigisse algo deles. Desta vez… talvez eu não chegue a tempo.

— Lorvindel já escolheu os próximos? — perguntou a figura em pé.

O velho do cajado ficou em silêncio por tanto tempo que achei que não responderia.

Quando respondeu, sua voz veio baixa. Antiga. Pesada.

— A escolha de Lorvindel nunca foi o que realmente importa. O que vai importar… é a escolha que eles mesmos farão.

Um tambor ecoou ao longe. Grave. Único. E eu acordei.

---*-

Fui tomar um banho logo cedo. Acordei suado, com o coração ainda disparado e uma dor residual latejando nas têmporas. A única coisa que eu conseguia me lembrar do sonho era aquela frase, repetindo sem parar na minha cabeça:

“A escolha de Lorvindel não é o que importa aqui, velho amigo. O que vai importar é a escolha que eles mesmos farão.”

Nada disso me parece normal. Seria estresse? Seria ansiedade? De toda forma, tentei retirar da minha cabeça a ideia de que, talvez, meus poderes estivessem saindo do controle.

O resto da semana se arrastou em um turbilhão contraditório. Minhas tardes estavam bem ocupadas. No final de nosso tour, Hanabi me falou sobre as disciplinas obrigatórias que eu precisava atender: no caso, um esporte e uma habilidade manual.

A aula-teste de marcenaria com o velho professor Marco Gepet se mostrou uma grata surpresa. O cheiro de madeira fresca e serragem enchia a oficina e eu senti que poderia fazer algo com minhas próprias mãos — algo real, tangível, sem precisar de saltos ou visões. Pela primeira vez em muito tempo eu criava algo sem depender dos meus poderes, e isso era estranhamente reconfortante, como se o mundo normal ainda tivesse espaço para mim. Pensei em passar, eventualmente, na biblioteca para buscar um manual de marcenaria.

Depois vieram as aulas experimentais de esportes. Testei futebol, basquete e vôlei com a dignidade de quem escolhe esportes baseados em anime e descobre tarde demais que protagonistas treinam antes do episódio final. Esgrima e kendô, pelo menos, fizeram sentido: havia peso, ritmo, leitura de corpo. Karatê, por outro lado, morreu na porta quando vi Rey de quimono e faixa marrom. Minha saúde mental agradeceu.

As aulas matinais pareciam eternas, especialmente na sala Rigel, onde eu me sentava sempre no fundo e observava os outros formarem seus grupos naturalmente, como se fosse a coisa mais fácil do mundo. No refeitório a solidão era ainda mais alta: o barulho de talheres e conversas ao redor só fazia meu prato parecer ainda mais vazio, um lembrete silencioso de que eu continuava sendo o figurante número três.

Eu via Hanabi de relance, sempre correndo de um lado para outro com pilhas de livros debaixo do braço, o rabo de cavalo loiro balançando enquanto ela desaparecia em corredores ou na biblioteca. Estudávamos na mesma sala de aula, mas, no minuto em que eu piscava, ela já tinha sumido. Troy, meu colega de quarto, eu mal via — ele saía antes do amanhecer e voltava quando eu já estava dormindo, exausto com o fim de curso, mentorias e artigos que produzia.

Com dois dos meus três conhecidos ocupados, resolvi abandonar o bom senso e me aproximar da Rey, mesmo que ela estivesse, quase o tempo todo, rodeada pelo seu bando — só posso explicar isso como desespero por companhia. Não era exatamente um grupo da turma Órion; havia alunos mais novos e mais velhos, todos girando ao redor de Jax Ramirez, que parecia ser o centro gravitacional daquela pequena gangue escolar — e Rey orbitava ali como quem fingia não querer escapar.

Sempre fui bom em ler rostos. Bom até demais. Um canto de boca preso, um olhar que escapa antes de uma resposta, o peso diferente nos ombros quando alguém mente — essas coisas gritavam para mim mais alto do que palavras. Talvez por isso eu tenha percebido algo estranho na Rey: no meio das risadas do bando, ela não parecia exatamente confortável. Era como se estivesse interpretando um papel que não combinava completamente com ela — e isso, de alguma forma estranha, me fez sentir menos sozinho na minha própria atuação.

Minha tentativa resultou em um belo espetáculo… para o bando, no caso.

— Olha, Rey, se não é o novato de merda. Será que ele quer tanto assim ser seu capacho?

Disse Jax. Ele era negro, alto, tinha cabelo raspado nas laterais e mantinha uma jaqueta de couro repousando no colo… mesmo que estivesse fazendo quase trinta graus. Pela primeira vez reparei na tatuagem do personagem Jax de Mortal Kombat no braço dele. Sua fala gerou algumas risadas debochadas do pessoal.

Rey entrou na zombaria. Antes de falar, seus olhos passaram por Jax por uma fração de segundo. Foi rápido demais para qualquer um notar. Infelizmente, eu era péssimo em não notar coisas.

— O que foi, novato? Perdeu alguma coisa? Tipo, o desejo de viver? Posso ajudar com isso se quiser.

— Uau, quão prestativa. Vou adicionar eutanásia assistida à sua lista de habilidades.

Eu disse isso com um sorriso apenas para entrar na brincadeira. Peguei um caderno e fingi fazer uma anotação. Houve um certo rebuliço e os olhos de Rey faiscavam de raiva. Acho que a brincadeira não deu muito certo.

— Parece que você tem mesmo um desejo pela morte.

Ela se levantou e veio andando em minha direção de maneira bem ameaçadora, com o punho esquerdo fechado. Parecia uma leoa indo atrás de uma presa encurralada antes de dar o bote.

— Olha, novato de merda, não é porque trocamos duas palavras que eu te dou permissão para falar comigo. Eu não ligo para sua paixãozinha platônica por mim; só me deixe em paz e, talvez, eu não faça da sua vida miserável aqui um inferno.

Ela pegou a mochila e saiu. Agora seu bando gargalhava com a vergonha de que o novato tinha passado apenas por querer trocar umas palavras com uma das poucas pessoas que conhecia.

Não tinha como eu reconhecer o quanto aquilo tinha doído. O soco no ego era real, mas sorrir era mais fácil do que admitir em voz alta. Só o que podia fazer era o de sempre: fiz uma reverência teatral, saindo apressado ouvindo as risadas contínuas:

— Por hoje, isso é tudo, pessoal. Faço shows de segunda a sexta. Amantes de Mortal Kombat só pagam meia.

Falei essa última parte apontando para Jax.

---*-

Na sexta à tarde, o campus esvaziava sob o sol poente, tingindo os prédios de laranja flamejante. Resolvi ir à biblioteca procurar o manual de marcenaria que tinha pensado antes.

Na entrada, a Sra. Yamada me fuzilou com olhos julgadores, mas não falou nada. Vi Sofia, a vice-representante da nossa turma, de pele morena e cabelos anormalmente lisos, andando confiante enquanto lançava a Hanabi um olhar de desdém que resolvi ignorar. Ao me ver, ela me dirigiu um sorriso com dentes perfeitos e me cumprimentou.

— Boa tarde, Kael, espero que sua primeira semana tenha sido bem produtiva e agradável.

Pensei numa piada para responder, mas ela saiu como se a minha resposta valesse menos que o batom que ela usava. Provavelmente valia mesmo.

Hanabi estava numa mesa com vários livros ao redor, folheando um livro de psicologia distraidamente, parando em algumas páginas onde analisava cada palavra com cuidado enquanto seu rabo de cavalo loiro balançava levemente. Seus olhos azuis pareciam distantes atrás dos óculos de gatinho, como se estivesse perdida em pensamentos. Aproximei-me com cuidado, não querendo assustá-la:

— Oi, Hanabi-san, como está?

— Olá Kael-kun. — Ela respondeu sem tirar os olhos do livro.

Me sentei e esperei que ela terminasse a leitura. Ela ainda ficou encarando o livro por mais uns 5 minutos. Eu comecei a pensar se não era bem-vindo ali quando ela finalmente olhou para cima e me viu, parecendo surpresa.

— Ah, Kael-kun. Como você está? Não tinha percebido que estava aí.

— Mas… você me cumprimentou… — respondi, confuso, coçando a nuca.

— Mesmo? — Bochechas vermelhas pareciam ser sua marca registrada. — Eu… hum… Às vezes faço isso… fico tão absorta no mundo dos livros ou nos estudos que esqueço que tem um mundo a ser vivido do lado de fora…

Ela resolveu mudar rapidamente o assunto.

— Como foi sua primeira semana? Espero que tenha sido bem produtiva e agradável.

Enquanto falava, ela marcou a página que estava lendo e fechou o livro. Depois, olhou para mim e piscou algumas vezes esperando minha resposta.

Pensei por 0,56 segundos no quanto ela e a vice-representante são diferentes e dei um pequeno resumo sobre as aulas de esportes e de marcenaria.

— Por fim, acho que vou ficar no kendô mesmo… já que eu temo que a Rey-chan possa me usar como tábua e me partir ao meio numa aula de karatê.

— Chame-a de “Rey-chan” e tenho certeza de que isso aconteceria. Iá!

Ela fez esse “iá” enquanto dava um leve e fofo golpe no livro que lia. Felizmente, ele não se partiu ao meio.

— Mas e amanhã? Nosso clube ainda está de pé, certo? Mas… entendo se quiser cancelar. Talvez você ande muito ocupado com os estudos ou… amigos

A fala da garota começou com um claro tom de empolgação vinda da piada, mas, rapidamente, regrediu para um desânimo e, finalmente, decepção, como se a rejeição fosse o único desenrolar possível. Fez uma pausa, ajustando os óculos como se fossem um escudo.

— Claro que está de pé, na verdade, estou bem ansioso por isso. - Falei mantendo um tom animado. — Acho que pode ser como jogar um RPG e…

Seus olhos brilharam de repente, interrompendo-me; o rabo de cavalo começou a dançar com o movimento entusiástico da cabeça. Era engraçado como ela se esquecia completamente de ser tímida quando o assunto a empolgava.

— Sim! Tenho passado algum tempo organizando material para começarmos. Pensei em personagens, classes, habilidades e equipamentos iniciais. Tenho pesquisado diversos livros de D&D além de páginas wiki de MMOs e reuni várias possibilidades de jobs para os nossos personagens. Quanto às quests e ao mundo, acho que poderíamos…

Antes que Hanabi avançasse mais em suas ideias, a Sra. Yamada apareceu ao nosso lado sem fazer barulho, como se a biblioteca a tivesse invocado. Era uma mulher de meia-idade, cabelo grisalho preso em um coque perfeito, óculos retangulares e uma postura tão reta que parecia parte da mobília oficial do lugar.

— Hanabi, querida, você não tem nada importante para estudar? — perguntou, com uma voz tão fraternal que quase escondia o olhar frio que lançou para mim. — Não deixe que pequenas distrações o desviem do seu futuro brilhante.

Ei! Distração, tudo bem, mas tenho me esforçado pra ser uma distração média pelo menos! – Pensei em uma piada que nunca saiu de mim. – Vi Hanabi corar e se voltar para os livros, ainda com os olhos embaçados:

— Sim, Sra Yamada. A senhora tem razão. Me desculpe, Kael-kun, preciso voltar aos estudos.

O carinho sumiu do rosto dela sem pressa, como uma lâmpada sendo apagada.

— Está procurando por algum livro em específico, jovem rapaz?

— Sim, esse que a Hanabi está lendo, me parece bem interessante estudar sobre — forcei meus olhos para ler o título na capa desgastada — O Ser Invisível: Uma Abordagem Psicológica à Invisibilidade Social. Me parece muito boa a ideia de ser invisível. Imagine as possibilidades, tipo, pegar a carne do almoço duas vezes…

Hanabi entendeu imediatamente minha piada, tampando a boca pra não soltar a risada contida. A Sra. Yamada não riu, seu rosto permanecendo impassível como uma estátua. Acredito que ela quisesse me mandar para a forca.

— Bem, obviamente este está sendo usado. Se não tem nada para fazer aqui, poderia se retirar. Está incomodando os outros alunos. — Falou de maneira enérgica.

— Tudo bem, ainda posso aprender com a escola da vida. — Falei de maneira dramática, colocando as costas da mão na testa, e saí deixando Hanabi tampando, novamente, a boca pra não mostrar que tinha gostado também desta piada. — A gente se vê, Hanabi-san, a não ser que eu fique bom demais ao treinar minha nova habilidade de invisibilidade.

Ao sair, dei um tapa na própria testa. O manual de marcenaria que eu tinha vindo buscar continuava lá dentro, protegido pela amazona de óculos retangulares. Decidi que não valia o risco de ser empalado por um olhar mortal. Melhor deixar pra semana que vem… ou nunca.

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